Entre possível e impossível
- Trecho da entrevista concedida por Jacques Derrida à revista Magazine Littéraire, nº 430, abril/2004: 28 -
Reencontra-se o tema do impossível. Perdoar não é possível senão ali onde se perdoa o que é impossível perdoar. Se se perdoa o que é perdoável, devido a um lamento ou a uma demanda de perdão, não se perdoa. Não existe perdão possível senão para o imperdoável. De modo que o possível é condicionado pelo impossível. Isso vale também para a doação, a hospitalidade. A hospitalidade incondicionada é impossível. Mas é a única hospitalidade possível e digna deste nome. Eu poderia multiplicar os conceitos obedecendo à mesma lógica em que a única possibilidade da coisa é a experiência de sua impossibilidade. Se se faz somente isso que se pode fazer, isso que está sob seu controle, não se faz senão desenvolver as possibilidades que já existem, exibe-se um programa. Para fazer alguma coisa é preciso fazer mais do que se pode fazer. Para decidir, é preciso atravessar a impossibilidade da decisão. Se eu sei o que decidir, não existe responsabilidade a assumir. Isso é verdadeiro para a experiência em geral. Para que alguma coisa aconteça, é preciso que seja absolutamente inantecipável. Um acontecimento não é possível senão como ‘impossível’, além do ‘eu posso’. Eu escrevo freqüentemente ‘impossível’ com um hífen entre im- e possível para sugerir que esta palavra não é negativa no uso que faço dela. O impossível é a condição de possibilidade do acontecimento, da hospitalidade, da doação, do perdão, da escrita. Quando alguma coisa é prevista, de certo modo, pode ser tomada como passado, portanto, não chega a realizar-se. Isso é também um pensamento político: não se realiza senão o que os esquemas disponíveis fracassam em antecipar.